terça-feira, 20 de novembro de 2012

O espelho com rádio

    Quando era moleque, meus professores adoravam falar mal do capitalismo. Com suas boinas pretas e camisas do Che Guevara defendiam os regimes de Cuba, China e União Soviética como a solução para as mazelas brasileiras. Lula ainda era um sindicalista a inspirar os trabalhadores e nós vivíamos o período pós-ditadura. Muita aconteceu até então. Os regimes comunistas ruiram, Lula presidiu o Brasil e hoje somos a sexta potência econômica do mundo, o que fez com que muita gente desistisse de defender o socialismo. Mas há alguns exemplos que encontro no dia-a-dia que me fazem pensar que talvez meus professores não estavam de todo errados.
   Dia desses fui fazer uma manutenção num computador de uma cliente. O computador dela ficava no quarto - odeio quando isso acontece, me sinto invadindo a intimidade dos outros - e um espelho me chamou a atenção. Não só por ser do tamanho de uma pessoa nem por ter iluminação própria, mas pelo relógio digital e os botões que se encontravam na parte superior.
    Fiz meu serviço mas não pude deixar de perguntar para minha cliente a razão daqueles botões no espelho (a curiosidade ainda vai me matar um dia), ela respondeu toda sorridente que eles eram do rádio embutido e da regulagem da iluminação. Ainda disse que todos que entravam no seu quarto perguntavam acerca do seu espelho.
   Pude notar sua satisfação ao me ver interessado, mas também notei como nosso mundinho capitalista pode ser manipulador.
    Ou você sai de casa um dia pensando "vou comprar um espelho com rádio embutido"? Que necessidade você sente de ter um objeto desse em casa? Isso me fez pensar nos comerciais que vemos na tv, há muito que eles abandonaram a fórmula de somente mostrar as qualidades do produto e passaram a atribuir valores abstratos como felicidade, satisfação, união.
    Já reparou como aquela smart tv une as famílias em torno de si? Que aquele carro é capaz de dizer quem você é? Que aquele desodorante vai te deixar mais atraente? As coisas se inverteram, se ontem você saía para comprar algo pela necessidade hoje a fabricante do produto cria essa necessidade em você. Afinal, é legal ter uma câmera digital que fotografa em 15 megapixels e "enxerga" detalhes que nosso olho nú não capta, não é? E mais legal ainda é assinar aquele pacote de tv por assinatura com 120 canais dos quais nos interessa somente 10.
    Eu não sou contrário a que possamos ter acesso a essas coisas, mas eu pergunto o quanto estamos dispostos a pagar por essa quinquilharia? Por que nos dispusemos a dormir em frente a uma loja para comprar a última versão do Iphone, que logo será substituído por outro com mais recursos que nem sabíamos que precisávamos? E por que, principalmente, a satisfação em adquirir esses produtos não dura mais que um breve período?
    A minha cliente ainda está eufórica com a sua nova aquisição, mas quanto tempo isso vai demorar? Imagino até a cena: daqui a algum tempo ela vai chegar em casa, adentrar o quarto, olhar para aquilo, olhar para o deck de seu Iphone junto a mesa do computador, seu rádio-relógio em cima do criado-mudo, sua tv pendurada na parede em frente a sua cama e pensar em quanto tempo não ouve mais rádio. Daí ela vai se perguntar: prá que eu comprei esse troço?
    Pode ser que ela o jogue fora ou dê para alguém, ou até mesmo que fique com ele para exercer sua principal função: ser um espelho. Mas aí pode ser que lancem um modelo com mp3...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O monstro do metrô

Adoramos bater a mão no peito e dizer "eu não tenho preconceito", espalhamos aos quatro ventos que moramos num país onde todos são tratados igualmente ou que não julgamos um livro pela capa ou coisa parecida até que algo do cotidiano vem e derruba nosso orgulho pelo chão.
Há algum tempo atrás dava graças aos céus por morar próximo a estação final do metrô, era garantia de embarcar e seguir a viagem confortavelmente sentado enquanto as pessoas iam se espremendo à medida que o transporte avançava pelas estações.
Dia desses ia participar de um evento em uma cidade a quilômetros de onde morava e tinha que colaborar com algumas frutas para adornar uma mesa. Era um dia de domingo e, graças aos céus, o metrô estava praticamente vazio. Pude me acomodar e acomodar as sacolas que trazia comigo enquanto esperava o metrô partir.
Enquanto isso algumas outras pessoas entraram, um casal com dois filhos de colo que se sentaram logo atrás de mim, duas adolescentes que se sentaram ao lado oposto e algumas outras pessoas. Aqui vou abrir um parêntese para tecer um comentário: meu irmão, que mora nos EUA, gosta de dizer que a diferença entre o brasileiro, o europeu e os estadunidense é que estes dois últimos aproveitam uma viagem para ler enquanto o brasileiro gosta de admirar a paisagem; e é verdade, lá ficamos nós a olhar para a janela, para os vizinhos, para o teto, aquele constrangimento quando algum olhar se cruza até que nossas atenções foram tomadas pelo homem que entrou por último.
Era um cara com seus quarenta e poucos anos, cabelo grande, barba idem e disforme. Usava uma camisa de gola pólo que um dia já fora preta, uma bermuda que um dia havia sido uma calça - dava para notar por causa dos fiapos que saíam das pernas - e um dockside já bem gasto. Uma aberração fashion para os entendidos de moda. Ele se sentou no único banco que ainda estava vazio de forma que ficou de frente para mim. Aproveitou uma barra de ferro pouco acima de seus pés para apoiá-los e suas pernas ficaram arqueadas e, para piorar, resolveu afastá-las para o mal estar geral.
A mulher atrás de mim reclamava com o marido o quanto aquilo era absurdo, como a cena era nojenta e que aquilo só podia ser coisa de maníaco. Ela virou-se para o lado na vã esperança de encontrar outro banco vazio enquanto resmungava e praguejava aquele tarado de pernas abertas à sua frente. As meninas riam-se e cochichavam, discretamente pegaram o celular e filmaram o homem. Do meu canto eu podia ouvir expressões como pedófilo, duzentão (uma gíria local para apontar quem gosta de abusar de menores) e Youtube - as meninas pretendiam colocar o vídeo dele na internet. Eu olhei para ele e o achei um sem noção, um mal educado que desconhece as regras de civilidade.
Ele continuou ali a nos incomodar enquanto o metrô se punha em movimento. Gracejos, pragas, recriminações seguiam à boca pequena enquanto a viagem prosseguia. Num dado momento, um melão que eu carregava resolveu que não iria virar ornamento de mesa e pulou de uma das sacolas. Saiu rolando pela sua liberdade enquanto os outros passageiros acompanhavam o trajeto daquele bólido amarelo como se anestesiados por algum gás calmante. E o melão chegou justamente nos pés daquele homem. Já ia me levantar para pegar aquele fujão quando o homem o pegou, levantou-se e me entregou. Agradeci com um aceno de cabeça, ele fez um sinal de positivo, esboçou um sorriso amarelo onde podia ver a carência de alguns dentes  e voltou a sua posição original.
A esta altura o metrô já estava apinhado de gente, até mesmo quem tinha direito a assentos preferenciais estava de pé porque não havia lugar para todos e eu, mesmo se quisesse não poderia ceder meu lugar com tanta sacola para cuidar (nessas horas a gente pede a todos os deuses que elas não rasguem senão já viu).
Próxima estação e mais gente entrou, uma senhora com duas crianças pequenas disputava um espaço na barra de ferro para apoiar a si e seus pequenos. Lamentei a situação desse nosso transporte público ineficiente e insuficiente.
Foi quando o homem se levantou, ofereceu seu assento para a senhora. Ela agradeceu e começou uma animada conversa com o homem, que ria e ora brincava com as crianças.
Quem diria, pensei. Tantas pessoas civilizadas, cristãs, moralistas ali reunidas e o único a se importar com a situação da senhora foi aquele de quem menos se esperava: o maníaco, o pedófilo, o monstro do metrô. Aquele jeito grosseiro, pensei eu, talvez não passasse da forma de devolver à sociedade aquilo que projetávamos dele. No nosso julgamento ele não passava de um ser que deveria ser colocado à parte por, de alguma forma ou outra, não se encaixar em nossos padrões de comportamento, bom senso e até de bom gosto.
E eu achando que era um cara sem preconceitos, caí com a cara no chão.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Esse estranho sexo feminino

Quando a gente é criança nota como as meninas são estranhas: usam saias, prendem coisas no cabelo, vivem agarradas a uma boneca e fazem xixi sentadas. Aí vem a adolescência e a gente percebe que além disso elas podem ser chatas, manipuladoras, intrometidas, e descobrimos também que não conseguimos viver sem elas. Charlie Brown sonhava com sua garotinha ruiva, o vagabundo conquistou o coração da dama, Romeu tirou a própria vida por amor a Julieta... Enfim, nós homens somos o que as mulheres fazem de nós.



Como não quero sofrer algum processo futuramente vou omitir o nome dessas criaturas que me mostraram o céu e o inferno com a mesma rapidez com que se fala "eu te amo" ou "eu te odeio".
Para começo de conversa vou lhes apresentar as garotas: logo na esquina morava a B. Ela era o que se chamaria hoje de patricinha: bonita, alta, magra, cheirosa e de gênio forte. Ela tinha um jeito todo especial de me tratar, fazia questão de contar pra todo mundo que nunca iria namorar comigo porque eu era um cara sem graça, tapado e sem QI*. O que me chamava a atenção é que nunca, sequer, jamais dei a entender que queria algo com ela, e nunca quis na verdade, mas mesmo assim ela saia a espalhar aos quatro ventos que nunca me namoraria.
Pulando algumas casas, quase em frente à minha morava a A. Ela não era tão bonita quanto B mas tinha algo que mexia comigo e com meus colegas. O jeito dela caminhar e os shorts apertados ressaltavam o belo corpo que ela tinha. Não importa o que estivéssemos fazendo, nós tínhamos que parar para acompanhar seu rebolado subindo ou descendo a rua, para a ira do seu irmão mais velho.
Ao lado da casa dela, tinha a Y. Por ela sim eu me interessei mas só de ficar ao lado dela eu tremia, suava e não conseguia dizer palavra.
Após a casa vizinha à minha, morava a V. Ah... essa vai merecer um post à parte num futuro qualquer, vamos dizer assim: ela me ensinou um bocado de coisas.
E ainda havia as meninas da igreja que frequentava, mas como esse é um universo bem grande vamos direto àquela que interessa: P. Minha primeira namorada. Se é que podia se chamar de namoro nossa relação.
Éramos bastante jovens, eu nem sei como juntei coragem para pedir a mão dela em namoro (ah sim, aqueles tempos eram outros, criançada!), mas era um namoro mais de troca de cartinhas do que qualquer outra coisa. Todo domingo a gente tinha preparada uma cartinha toda perfumada pra trocar, sentávamos juntos, vez ou outra trocávamos olhares, toques de mão mas beijar que é bom, nada. Algumas vezes nos encontrávamos sozinhos em alguma dependência da igreja, após o culto, e eu me prometia "agora vai!". Pegava a mão dela, olhava em seus olhos e, e... as mãos começavam a suar, as pernas tremiam e eu torcia que alguém aparecesse para me tirar daquela situação. Acho que deus ouvia minhas preces porque sempre aparecia alguém.
Neste tempo, A decidiu que frequentaria a igreja conosco. Como a igreja ficava a algumas ruas de casa, mesmo quem não era de frequentar uma vez ou outra ia com a gente.
Ela mal chegou na igreja e já fez amizade com vários dos meus colegas e com minha namorada. E não sei porque cargas d'água ela decidiu que acabaria com isso. Num belo dia, após o culto dominical A vem me trazer um recado: P quer falar comigo, sozinho. Opa! Imaginei que naquele dia seria, finalmente, o do meu primeiro beijo. Qual nada. P me tratou rispidamente, disse que estava tudo acabado entre nós e que eu deixasse de pegar no seu pé. Fiquei sem entender nada. "Sabe, eu nunca sei o que está acontecendo", parafraseei Charlie Brown em minha mente.
Algum tempo depois estava a me lamentar em frente da casa de A. Falei que o que me matava era não saber o que eu havia (ou não) feito para P terminar o namoro comigo, onde eu tinha errado e porque ela estava com raiva de mim. A baixou a cabeça e me disse olhando para o chão: "Eu tenho que te confessar uma coisa, fui eu quem fez a P terminar com você"**. "Ué, mas porquê?", perguntei meio confuso. A se levantou, olhou pra mim e confessou: "Porque eu estava com inveja de vocês dois!", e saiu correndo para dentro de casa, fechando o portão na minha cara para evitar que eu fizesse qualquer pergunta. Fiquei ali parado, pensei e deveria ficar furioso com ela mas o otário aqui ficou, de certa forma, contente. O sonho de consumo dos meninos estava com inveja do meu namoro! Que sorte!
E é aí que entra a coisa estranha. A passou a me evitar, mal falava comigo e deixou de ir pra igreja. Custou muito para que nos falássemos direito, mas antes não tivesse. Ela confessou que não pensou no que estava fazendo, que não gostava de mim tanto assim e que estava apaixonada por outro. Beleza! Então era só ela confessar seus pecados para a P me perdoar, certo? Errado! Porque enquanto ela esperava que sua consciência a deixasse em paz, A arrumou um outro namorado. Que puxa!
E essa é só uma parte das minhas desventuras com esse estranho ser chamado mulher, mas por enquanto é p-p-pessoal!!! Em breve tem mais veneno.

* eu só fui descobrir o que é QI anos mais tarde
** nunca descobri o que A falou para P ficasse com raiva de mim.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O velho general

Sempre que chegamos perto do dia dos pais, ou das mães, dos avós e, principalmente, no Natal nós vemos por aí declarações de amor, o corre-corre nos shoppings para presentear os entes queridos e a felicidade estampada em campanhas publicitárias. Mas será sempre assim? Será que temos uma família de comercial de margarina, onde todos se amam e se respeitam? A sua eu não sei mas, com certeza, a do velho general não era assim.
Todos os domingos realizava-se o mesmo ritual: após levar seus cães para passear, o velho general colocava seu Opala preto para fora da garagem e, junto com seus filhos, lavava-o com todo o esmero possível. "Molha aqui", "esfrega aqui" - ordenava o general enquanto se encarregava de lavar o alto do seu possante (os meninos ainda eram pequenos e não alcançavam), cantarolando os sucessos de Nelson Gonçalves.
Vira e mexe algum vizinho aparecia para puxar conversa, o general pouco prestava atenção. Respondia por monossílabos, exceto quando a conversa era sobre seus dois assuntos preferidos: o Opala e o período militar.
Sobre o carro, ele mostrava o barulho do possante motor, o conforto do interior impecavelmente asseado e a estabilidade garantida à base de trocas e manutenções constantes de molas, amortecedores e pneus. Era notório seu amor por aquele bólido.
Sobre o período militar ele enumerava saudoso os benefícios da época em que os militares comandavam o país. Apontava como o país estava caminhando para o caos sob o regime civil. "Agora temos ladrões dentro e fora do governo!", vociferava enquanto cuspia no chão.
Mesmo assim não se distraía do trabalho imposto aos filhos. Ora tinha que interromper a conversa para chamar a atenção. "Cidinha, não use tanto sabão, sua tonta!". "Carlinhos, fecha a droga da torneira quando não estiver usando, é você quem paga a conta de água aqui?", "Dodô, diacho, eu já te falei que não é assim que se esfrega um pneu, porra!".
Com o Dodô ele tinha um jeito todo especial de agir. Certo dia, ele tomou a esponja da mão do garoto, esfregou com força o pneu para mostrar como fazia e depois esfregou a esponja na cara do menino. Dodô ensaiou um choro mas logo foi advertido pelo pai. "Você vai chorar moleque? Sabe muito bem que vai ser pior se fizer isso, não é?". Dodô enxugou as lágrimas do rosto e esfregou o pneu do carro com força. Sentado em frente à minha casa, eu podia sentir a raiva do garoto, pegando a esponja e cerrando-a na palma da mão, mergulhando-a com força no balde sabão e jogando-a contra o pneu do carro. Seu pai simplesmente ignorava e voltava a conversa.
Pouco sabia sobre os três irmãos. Estudavam no Colégio Militar, para o orgulho do pai, e só os via chegando já tarde para casa ou aos domingos quando tinham de lavar o carro do pai. Raramente, os via  entrarem no carro para algum passeio em família, enquanto general recomendava: "Limpem os pés antes de entrar, nada de ficar pulando no banco e não coloquem as mãos imundas nos vidros!". A insatisfação em ter intrusos dentro do seu carro era evidente. O resto era um mistério para mim e para meus colegas de brincadeira na rua. Mas houveram duas situações que foram marcantes para mim. Uma, foi num dia em que eles chegavam do colégio e nós estávamos jogando bola na rua. Um chute errado e a bola foi cair na área do general. Dodô foi correndo, entrou pelo portão e com um chute jogou a bola por cima do portão. Pude notar seu sorriso de satisfação enquanto a figura do pai aparecia na janela. "Dodô, já para dentro! Já não te falei para não dar conversa para esses marginais?". Dodô entrou cabisbaixo enquanto ouvia os impropérios do pai. Não sei o que aconteceu, mas minutos depois eu podia ouvir os estalos de cinto, xingamentos e promessas de punições mais severas.
Sempre que o general disciplinava seus filhos eu ficava me perguntando porque a mãe deles nunca fizera nada. Nas costas do marido, dona Cotinha era um amor de pessoa, falava com a vizinhança e não se importava que jogássemos bola em frente a sua casa. "Só tomem cuidado para a bola não pegar no carro, senão vai ser um deus-nos-acuda", nos advertia; mas perto da hora do marido chegar, ela corria  para se trancar em casa e pôr a mesa do jantar.
Passou-se anos e num dia já próximo do fim do ano, estava chegando do colégio quando ouvi o estrondo de vidro estilhaçando. Parei para ver a cena. Dodô havia arremessado uma pedra no pára-brisa do carro de seu pai enquanto amaldiçoava. O carro e seu pai. "Por que você não foi embora com seu maldito carro e não me deixou em paz!?", "Por que você não trepa logo com ele e me esquece!?" Vi um Dodô transtornado e trêmulo vociferando aquelas palavras.
A vizinhança não demorou a se reuniu para ver o circo, o general saiu com os dentes cerrados, a mãe e os dois irmãos saíram atrás. O velho e seu filho se encontraram na garagem de casa.
Por causa do burburinho da vizinhança não pude ouvir o teor da discussão, mas os gestos exaltados e os dedos em riste denunciavam a situação. Dodô então pegou uma mochila, colocou nas costas e saiu batendo o portão de casa.
"Eu não quero te ver nunca mais aqui, seu imprestável! Você morreu prá mim, ouviu? VOCÊ MORREU PRÁ MIM!!!" Vociferava o general enquanto Dodô sumia subindo a rua.
Nunca mais tive notícias suas.
Os anos passaram e Cidinha formou-se em medicina. Hoje serve a Marinha, viaja quase durante o ano inteiro e mesmo quando está aqui não pára em casa. Carlinhos também seguiu a carreira militar, casou-se, teve filhos e só aparece na casa dos pais quando um deles tem alguma crise de saúde ou no Natal, mesmo assim fica por pouco tempo e vai embora. Ainda assim, os dois são o orgulho do general que faz questão de contar para todos como os criou dentro da ordem e disciplina e como hoje são bem sucedidos. Ninguém ousa perguntar sobre Dodô porque deste ele não fala palavra.
Mesmo tendo mudado para longe, tenho notícias que o velho general ainda mantém o mesmo hábito aos domingos: voltando do passeio com seus cachorros, coloca o amado carro para fora da garagem e lava-o com o mesmo esmero de sempre. Só que agora, sozinho.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

M.

M era uma menina simpática, expansiva, às vezes bagunceira mas nada do fora do normal de qualquer adolescente. Isso até descobrir que para ser ela mesma teria de travar uma batalha onde todos sairiam perdendo.
A diretora do colégio onde eu trabalhava chamava a sala de informática de confessionário, porque sempre havia algum aluno dividindo sua vida comigo. Como um bom ouvinte, prestava atenção ao relato - as vezes bem longo - de meninos e meninas procurando alguém com quem dividir sua alegria, tristeza, anseio e decepção. Como um bom amigo, aconselhava. Como um bom professor chamava a atenção por ele ou ela ter matado aula para vir falar comigo e mandava de volta para a sala de aula, mas não havia jeito: sempre alguém precisando de conselhos pedia para ir ao banheiro ou beber água e vinha bater na minha porta.
M era uma das maiores frequentadoras do confessionário. Chegava sem pedir licença, sorrindo e propondo: e aí professor, vamos colocar as fofocas em dia? Então começava a me atualizar com as mais quentes fofocas da classe, da vida de seus ídolos - cuja maioria eu não conhecia - e da sua família. M. se achava incompreendida, reclamava que seus pais não a entendiam e davam preferência para seu irmão que recebia mais atenção e tinha os desejos prontamente atendidos.
Dia desses ela me veio surpreender com uma munhequeira da Pitty e as unhas pintadas de preto, havia se tornado roqueira, algo que seus pais evangélicos nunca iriam concordar. Advertia-a, mas M era esperta, sua pose roqueira só se mantinha dos portões do colégio prá dentro. Lá fora, ela mantinha a imagem que seus pais queriam que ela tivesse. Não demorou muito e ela passou a trazer a roupa na mochila para trocar no banheiro do colégio, afinal roqueiro que é roqueiro tem de andar de preto. E lá vinha ela me perguntar o que eu achava, se devia pedir um All Star de cano curto ou longo para seus pais, se a sombra nos olhos não estava exagerada. Eu sabia que aquilo não iria durar muito, seus pais fatalmente descobririam e lhe dariam algum castigo. Dito e feito: ficou duas semanas sem internet além da obrigação de participar dos cultos diários da igreja.
Nesse período M. vinha implorar para usar a sala de informática para olhar seu Orkut e MSN, por mais que   lamentasse não podia atendê-la senão iria sobrar para mim também mas, havia algo além disso, havia um amargor em seus olhos que eu via crescer. Tentei abordá-la para descobrir o que estava acontecendo mas ela só me respondia que um dia me contaria. Um dia M não chegou sorridente à minha sala, ao contrário, estava bastante nervosa. Roendo o canto das unhas confessou: professor, estou gostando de alguém. Ora, quem é o sortudo? Perguntei brincando, mas só falou que depois me contaria.
M estava gradativamente mudando, cortou os longos cabelos de que tanto gostava, seu sorriso contagiante mudara para um esboço amarelado e magro e seus olhos afundaram-se e ganharam contornos de roxo.
Insisti para que ela me dissesse o que estava acontecendo, mas ela sempre se negava, desviava de assunto, mas eu podia sentir em seus olhos que ela implorava para desabafar. Disse a ela que sempre estaria ali para ajudá-la e que pudesse contar comigo seja para o que fosse, ela me sorriu e saiu da sala.
Depois disso, M desaparecera por uma semana. Ninguém tinha notícias dela e o pouco que seu irmão dizia era que ela estava doente, fazendo tratamento e tomando remédios. Na outra semana, descobri que pediram sua transferência e fiquei sem notícias por quase um mês.
Um dia, seu irmão veio conversar comigo, resolvi abordá-lo acerca de sua irmã. Ele resistiu por algum tempo mas depois contou: Professor, M tem um problema. Tipo, ela não é normal, saca? Não, respondi. Pô, ela, tipo, não é como as outras meninas, tipo que gosta de meninos, saca? Ela, tipo, gosta de meninas. Sério? Respondi surpreso. É véi, e ela resolveu contar prá minha mãe. Aí, tipo, a coisa ficou feia, minha mãe levou ela no psicólogo, um cara lá da nossa igreja, levou ela no pastor prá orar por ela, internou elas uuns dias só que a coisa só tá piorando. daí minha mãe resolveu mudar ela de escola.
Putz! Foi tudo o que consegui responder. Imaginei a pressão que a menina passava. Conhecia pouco a mãe dela mas sabia que era muito rígida com os filhos. Sabia quando você se sente impotente diante de uma situação? Pois é. Queria fazer algo por minha amiga, mas o quê?
Com dois meses M estava de volta, havia feito de tudo para ser expulsa do outro colégio e conseguiu. Me contaram que ela estava na Coordenação conversando com a diretora, corri para vê-la. Bati no portal, pois a porta estava aberta. Ela olhou prá trás e prontamente se pôs de pé e veio em abraçar. Acariciei seu cabelo, agora vermelho e ainda mais curto, olhei no fundo de seus olhos tristes e dei um beijo na sua testa. Você está linda, senti saudades. Notei o olhar de desaprovação da diretora, uma carola defensora da moral e dos bons costumes, mas que se explodisse. Disse a M que depois fosse em minha sala.
Minutos depois lá estava ela: E aí professor, vamos colocar as fofocas em dia? Claro! Sorri-lhe. Ela então me contou a dura batalha que travava com seus pais, sua família e sua igreja. Contou da internação a que foi submetida, dos remédios que fora obrigada a tomar e das sessões de oração na igreja. Confessou que sua amada também era da igreja e que resolveram assumir simultaneamente, mas esta deu prá trás na última hora e coube a M sofrer as consequências.
Por fim, sua mãe resolveu assumir que aquilo era uma fase e que passaria, só assim para tornar a realidade aceitável. Enquanto isso M ficaria de observação em casa e no colégio.
A sua volta não foi das mais agradáveis e pacíficas, porque teve de enfrentar agora a marcação dos colegas. Todos já sabiam de seu segredo e óbvio, isso dividia opiniões. Tal divisão culminou numa briga na porta do colégio. Não sei quem começou, mas as acusações de "sapatão" e "vadia" ecoavam de todos os lados. M teve um desmaio e seus pais foram chamados ao colégio. Dias depois soube que a mandaram para viver com os tios em Minas Gerais.
No princípio, nosso contato era semanal. Sempre conversávamos pelo MSN ou pelo Orkut. Depois passou a ser mensal e depois passei meses sem notícias suas, mas ao que tudo indicava ela estava bem, soube que namorava (escondido) uma outra menina e sempre que conversávamos ela me prometia aparecer qualquer dia.
M foi prá mim um exemplo de coragem, mesmo com as poucas armas que tinha lutou para que a respeitassem, mas também foi um exemplo de como a sociedade é cruel com quem é considerado diferente.
Força, menina, seu professor sempre vai estar aqui para a gente colocar as fofocas em dia!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eu te odeio, cara!

Todo herói precisa de um antagonista. Batman tem o Coringa, Superman tem Lex Luthor, os Thundercats têm Mum-ra. Eu também tive o meu: seu apelido era Ceguinho, nunca soube seu nome verdadeiro.
Como eu, o cara também usava óculos mas era só isso que tínhamos em comum. Ele era bem afeiçoado, forte, grande, bom esportista. Deve ter sido antipatia à primeira vista porque ele fazia questão de sair de sua sala de aula para transformar minha sexta e sétima série um inferno.
O cara derrubava meu material escolar, me trancava dentro da sala de aula, roubava meus óculos, me ridicularizava em frente a meus colegas de classe. Sua maldade favorita era entrar numa roda de conversa onde eu estava e me mandar calar a boca. O que eu prontamente atendia enquanto os colegas riam da situação.
Interessante, olhando hoje para o que acontecia, é que nunca houve agressão física. Ele nunca precisou usar os punhos para me intimidar, então porque eu tinha medo dele? Talvez, porque ele usava uma arma mais poderosa que a força: as palavras.
Num dia de educação física, ele veio atrás de mim, tomou meu boné e começou a jogar para seus colegas e eu, que nem um bobo, corria para pegar de volta. Não satisfeito, ele juntou minhas mãos enquanto outro encheu o boné de água e colocou em minha cabeça. Todos se divertiram, até o professor que observava tudo de longe. Resolvi abordar o Ceguinho: cara, porque você me odeia tanto? Nunca fiz nada para você! Ao que ele respondeu: Eu te odeio, cara!
Simples assim. O cara me odiava, vai saber porque. O pouco que sabia era que ele odiava o apelido que lhe deram. Naquela época, óculos ou aparelhos nos dentes eram motivo de chacota. E os adolescentes sabem ser bastante cruéis quando querem zoar quem é considerado diferente. Vai ver, ele queria descontar sua frustração em mim, sei lá.
Certo dia, ia prá casa imaginando as maneiras mais cruéis de me vingar de meu oponente, quando percebi uma sombra balançando atrás de mim. Um moleque (menor que eu) dançava e imitava meu caminhar. Resolvi que não teria outro Ceguinho na minha vida, joguei minha mochila no chão e saí correndo atrás dele. Quando ia alcançá-lo, ele tropeçou e caiu numa poça de lama. os colegas que assistiram a cena se divertiram. "Aí, Renato!" eu pude ouvir de alguém. Me senti poderoso ao ver aquele moleque com medo de mim, jogado na lama e eu de pé na frente dele com os punhos cerrados. Eu tinha sangue nos olhos e esta seria minha vingança, mesmo não sendo quem eu gostaria que estivesse ali, jogado e humilhado, mas pelo menos eu iria extravasar toda a humilhação e sofrimento de meses.
Mas eu não era o Ceguinho, eu não tinha a menor vocação para aquilo. Baixei a cabeça e fui embora.
O Ceguinho ainda me atormentou durante meses, até desaparecer na sétima série. Nunca mais tive notícias dele, mas mesmo assim atormentou minhas lembranças durante muito tempo.
No fundo, mas bem lá no fundo eu gostaria de encontrá-lo uma outra vez só para dizer na cara dele "eu te odeio, cara!".
Hoje, descobri que isso tem nome, chama-se bullying. Se você que é pai, mãe ou professor é legal observar o comportamento da meninada, porque eu vou confessar a vocês: isso deixa marcas na vida difíceis de apagar.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Que puxa...

"Que puxa...", essas foram as primeiras palavras das primeiras linhas do que viria a se tornar meu primeiro diário. O ano era 1987 e eu estava perdidamente apaixonado.
Bom, chamar de diário é uma licença poética pois se tratava apenas de um caderno pequeno de capa dura amarela, desses que a gente encontra até hoje nas papelarias, mas que foi durante todo o ano meu maior confidente. E no dia 17 de junho de 1987 escrevi as únicas palavras que vieram à cabeça após a minha primeira desilusão amorosa.
Mas esse "Que puxa..." eu aprendi com um baixinho cabeçudo, perdidamente apaixonado por uma garotinha ruiva que estava fazendo sucesso na TV. Perdido num mundo que não compreendia, péssimo nos esportes, Charlie Brown nutria um amor platônico por uma garota que sequer sabia que ele  existia; então, a identificação foi imediata. Eu também era péssimo nos esportes, sempre era deixado de lado nas brincadeiras, era o último a saber das coisas e também estava perdidamente apaixonado por uma garota, só que no meu caso ela era loira.
Desde a primeira exibição não perdi um episódio do Snoopy, compartilhei com Charlie Brown suas decepções, desilusões, alegrias, mas principalmente suas esperanças. Apesar de tudo, Charlie acreditava no amor, acreditava que um dia tudo iria dar certo e que os outros passariam a lhe respeitar. E por causa dele eu também acreditava. Até o fatídico dia de 17 de junho, quando tomado de uma coragem que viera de não sei da onde, resolvi declarar meu amor à Cristina.
Foi preciso coragem, controle de pernas bambas e mãos suando para dizer "Cristina, posso conversar com você?" e foi preciso mais coragem ainda para encará-la por cima de meus grossos óculos de grau me dizendo um sonoro "Não!" e completando "Eu sei o que você quer, vai te catar garoto!".
Você já sentiu o mundo girar a seu redor? Pois bem, o mundo, a sala, os colegas de classe, tudo girava ao meu redor. Foi preciso um esforço imenso para encontrar o caminho de volta à minha mesa, ignorar os olhares que penetravam a minha face avermelhada e, principalmente, não chorar. O meu mundo havia desmoronado, como desejei que Charle Brown fosse de verdade, que estivesse ali para me emprestar um ombro amigo e me dizer "Que puxa...".
Mas só havia eu, e tinha que fazer algo. Então peguei o caderno - nem me lembro porque o levei para a escola - coloquei a data e escrevi bem no meio da folha "Que puxa...". Foi só o que consegui escrever e foi só o que fiquei olhando até o sinal tocar. Finalmente, havia chegado a hora de embora.
Pensei em inúmeras maneiras de nunca mais ir à escola, de adoecer, de mudar de cidade mas o que um garoto de 12 anos pode fazer? Não havia esperança, eu tinha que encarar o mundo cruel de qualquer maneira.
Com o passar dos dias, a ferida foi cicatrizando - nada como ser adolescente - e passei a torcer para o que o destino de Charlie Brown fosse diferente do meu. E foi. Primeiro o baile onde ele finalmente conheceu a garotinha ruiva e depois quando ela deixou um bilhete para ele. A imagem está viva em minha cabeça até hoje: Charlie Brown pulando pelas ruas, gritando que o ano que vem seria tudo diferente, que ele finalmente namoraria a garotinha ruiva e que ninguém mais iria rir dele. Aquilo me encheu de esperança, um dia eu também iria encontrar uma menina legal, amigos sinceros e respeito. "Bola prá frente, Renato!" era o que repetia a mim mesmo.
E porque estou contando essa história? Porque hoje, 25 anos depois me deparo com o tal caderninho, amarelado e empoeirado, perdido entre caixas de coisas que supostamente iria jogar fora. Uma memória de um tempo estranho, dolorido, incompreensível mas que agora me faz rir e que quero compartilhar com vocês de agora em diante.

Bem-vindos ao meu blog!

Renato "Charlie Brown"

P.S.: Charlie Schulz, onde estiver, obrigado pela maravilhosa criação!