terça-feira, 25 de setembro de 2012

O monstro do metrô

Adoramos bater a mão no peito e dizer "eu não tenho preconceito", espalhamos aos quatro ventos que moramos num país onde todos são tratados igualmente ou que não julgamos um livro pela capa ou coisa parecida até que algo do cotidiano vem e derruba nosso orgulho pelo chão.
Há algum tempo atrás dava graças aos céus por morar próximo a estação final do metrô, era garantia de embarcar e seguir a viagem confortavelmente sentado enquanto as pessoas iam se espremendo à medida que o transporte avançava pelas estações.
Dia desses ia participar de um evento em uma cidade a quilômetros de onde morava e tinha que colaborar com algumas frutas para adornar uma mesa. Era um dia de domingo e, graças aos céus, o metrô estava praticamente vazio. Pude me acomodar e acomodar as sacolas que trazia comigo enquanto esperava o metrô partir.
Enquanto isso algumas outras pessoas entraram, um casal com dois filhos de colo que se sentaram logo atrás de mim, duas adolescentes que se sentaram ao lado oposto e algumas outras pessoas. Aqui vou abrir um parêntese para tecer um comentário: meu irmão, que mora nos EUA, gosta de dizer que a diferença entre o brasileiro, o europeu e os estadunidense é que estes dois últimos aproveitam uma viagem para ler enquanto o brasileiro gosta de admirar a paisagem; e é verdade, lá ficamos nós a olhar para a janela, para os vizinhos, para o teto, aquele constrangimento quando algum olhar se cruza até que nossas atenções foram tomadas pelo homem que entrou por último.
Era um cara com seus quarenta e poucos anos, cabelo grande, barba idem e disforme. Usava uma camisa de gola pólo que um dia já fora preta, uma bermuda que um dia havia sido uma calça - dava para notar por causa dos fiapos que saíam das pernas - e um dockside já bem gasto. Uma aberração fashion para os entendidos de moda. Ele se sentou no único banco que ainda estava vazio de forma que ficou de frente para mim. Aproveitou uma barra de ferro pouco acima de seus pés para apoiá-los e suas pernas ficaram arqueadas e, para piorar, resolveu afastá-las para o mal estar geral.
A mulher atrás de mim reclamava com o marido o quanto aquilo era absurdo, como a cena era nojenta e que aquilo só podia ser coisa de maníaco. Ela virou-se para o lado na vã esperança de encontrar outro banco vazio enquanto resmungava e praguejava aquele tarado de pernas abertas à sua frente. As meninas riam-se e cochichavam, discretamente pegaram o celular e filmaram o homem. Do meu canto eu podia ouvir expressões como pedófilo, duzentão (uma gíria local para apontar quem gosta de abusar de menores) e Youtube - as meninas pretendiam colocar o vídeo dele na internet. Eu olhei para ele e o achei um sem noção, um mal educado que desconhece as regras de civilidade.
Ele continuou ali a nos incomodar enquanto o metrô se punha em movimento. Gracejos, pragas, recriminações seguiam à boca pequena enquanto a viagem prosseguia. Num dado momento, um melão que eu carregava resolveu que não iria virar ornamento de mesa e pulou de uma das sacolas. Saiu rolando pela sua liberdade enquanto os outros passageiros acompanhavam o trajeto daquele bólido amarelo como se anestesiados por algum gás calmante. E o melão chegou justamente nos pés daquele homem. Já ia me levantar para pegar aquele fujão quando o homem o pegou, levantou-se e me entregou. Agradeci com um aceno de cabeça, ele fez um sinal de positivo, esboçou um sorriso amarelo onde podia ver a carência de alguns dentes  e voltou a sua posição original.
A esta altura o metrô já estava apinhado de gente, até mesmo quem tinha direito a assentos preferenciais estava de pé porque não havia lugar para todos e eu, mesmo se quisesse não poderia ceder meu lugar com tanta sacola para cuidar (nessas horas a gente pede a todos os deuses que elas não rasguem senão já viu).
Próxima estação e mais gente entrou, uma senhora com duas crianças pequenas disputava um espaço na barra de ferro para apoiar a si e seus pequenos. Lamentei a situação desse nosso transporte público ineficiente e insuficiente.
Foi quando o homem se levantou, ofereceu seu assento para a senhora. Ela agradeceu e começou uma animada conversa com o homem, que ria e ora brincava com as crianças.
Quem diria, pensei. Tantas pessoas civilizadas, cristãs, moralistas ali reunidas e o único a se importar com a situação da senhora foi aquele de quem menos se esperava: o maníaco, o pedófilo, o monstro do metrô. Aquele jeito grosseiro, pensei eu, talvez não passasse da forma de devolver à sociedade aquilo que projetávamos dele. No nosso julgamento ele não passava de um ser que deveria ser colocado à parte por, de alguma forma ou outra, não se encaixar em nossos padrões de comportamento, bom senso e até de bom gosto.
E eu achando que era um cara sem preconceitos, caí com a cara no chão.

2 comentários:

  1. Já me deparei com situações parecidas com essa, e ainda me espanto!!

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    1. Pois é, eu preciso me policiar para não cometer injustiças de vez em quando.

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