terça-feira, 20 de novembro de 2012

O espelho com rádio

    Quando era moleque, meus professores adoravam falar mal do capitalismo. Com suas boinas pretas e camisas do Che Guevara defendiam os regimes de Cuba, China e União Soviética como a solução para as mazelas brasileiras. Lula ainda era um sindicalista a inspirar os trabalhadores e nós vivíamos o período pós-ditadura. Muita aconteceu até então. Os regimes comunistas ruiram, Lula presidiu o Brasil e hoje somos a sexta potência econômica do mundo, o que fez com que muita gente desistisse de defender o socialismo. Mas há alguns exemplos que encontro no dia-a-dia que me fazem pensar que talvez meus professores não estavam de todo errados.
   Dia desses fui fazer uma manutenção num computador de uma cliente. O computador dela ficava no quarto - odeio quando isso acontece, me sinto invadindo a intimidade dos outros - e um espelho me chamou a atenção. Não só por ser do tamanho de uma pessoa nem por ter iluminação própria, mas pelo relógio digital e os botões que se encontravam na parte superior.
    Fiz meu serviço mas não pude deixar de perguntar para minha cliente a razão daqueles botões no espelho (a curiosidade ainda vai me matar um dia), ela respondeu toda sorridente que eles eram do rádio embutido e da regulagem da iluminação. Ainda disse que todos que entravam no seu quarto perguntavam acerca do seu espelho.
   Pude notar sua satisfação ao me ver interessado, mas também notei como nosso mundinho capitalista pode ser manipulador.
    Ou você sai de casa um dia pensando "vou comprar um espelho com rádio embutido"? Que necessidade você sente de ter um objeto desse em casa? Isso me fez pensar nos comerciais que vemos na tv, há muito que eles abandonaram a fórmula de somente mostrar as qualidades do produto e passaram a atribuir valores abstratos como felicidade, satisfação, união.
    Já reparou como aquela smart tv une as famílias em torno de si? Que aquele carro é capaz de dizer quem você é? Que aquele desodorante vai te deixar mais atraente? As coisas se inverteram, se ontem você saía para comprar algo pela necessidade hoje a fabricante do produto cria essa necessidade em você. Afinal, é legal ter uma câmera digital que fotografa em 15 megapixels e "enxerga" detalhes que nosso olho nú não capta, não é? E mais legal ainda é assinar aquele pacote de tv por assinatura com 120 canais dos quais nos interessa somente 10.
    Eu não sou contrário a que possamos ter acesso a essas coisas, mas eu pergunto o quanto estamos dispostos a pagar por essa quinquilharia? Por que nos dispusemos a dormir em frente a uma loja para comprar a última versão do Iphone, que logo será substituído por outro com mais recursos que nem sabíamos que precisávamos? E por que, principalmente, a satisfação em adquirir esses produtos não dura mais que um breve período?
    A minha cliente ainda está eufórica com a sua nova aquisição, mas quanto tempo isso vai demorar? Imagino até a cena: daqui a algum tempo ela vai chegar em casa, adentrar o quarto, olhar para aquilo, olhar para o deck de seu Iphone junto a mesa do computador, seu rádio-relógio em cima do criado-mudo, sua tv pendurada na parede em frente a sua cama e pensar em quanto tempo não ouve mais rádio. Daí ela vai se perguntar: prá que eu comprei esse troço?
    Pode ser que ela o jogue fora ou dê para alguém, ou até mesmo que fique com ele para exercer sua principal função: ser um espelho. Mas aí pode ser que lancem um modelo com mp3...

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