terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eu te odeio, cara!

Todo herói precisa de um antagonista. Batman tem o Coringa, Superman tem Lex Luthor, os Thundercats têm Mum-ra. Eu também tive o meu: seu apelido era Ceguinho, nunca soube seu nome verdadeiro.
Como eu, o cara também usava óculos mas era só isso que tínhamos em comum. Ele era bem afeiçoado, forte, grande, bom esportista. Deve ter sido antipatia à primeira vista porque ele fazia questão de sair de sua sala de aula para transformar minha sexta e sétima série um inferno.
O cara derrubava meu material escolar, me trancava dentro da sala de aula, roubava meus óculos, me ridicularizava em frente a meus colegas de classe. Sua maldade favorita era entrar numa roda de conversa onde eu estava e me mandar calar a boca. O que eu prontamente atendia enquanto os colegas riam da situação.
Interessante, olhando hoje para o que acontecia, é que nunca houve agressão física. Ele nunca precisou usar os punhos para me intimidar, então porque eu tinha medo dele? Talvez, porque ele usava uma arma mais poderosa que a força: as palavras.
Num dia de educação física, ele veio atrás de mim, tomou meu boné e começou a jogar para seus colegas e eu, que nem um bobo, corria para pegar de volta. Não satisfeito, ele juntou minhas mãos enquanto outro encheu o boné de água e colocou em minha cabeça. Todos se divertiram, até o professor que observava tudo de longe. Resolvi abordar o Ceguinho: cara, porque você me odeia tanto? Nunca fiz nada para você! Ao que ele respondeu: Eu te odeio, cara!
Simples assim. O cara me odiava, vai saber porque. O pouco que sabia era que ele odiava o apelido que lhe deram. Naquela época, óculos ou aparelhos nos dentes eram motivo de chacota. E os adolescentes sabem ser bastante cruéis quando querem zoar quem é considerado diferente. Vai ver, ele queria descontar sua frustração em mim, sei lá.
Certo dia, ia prá casa imaginando as maneiras mais cruéis de me vingar de meu oponente, quando percebi uma sombra balançando atrás de mim. Um moleque (menor que eu) dançava e imitava meu caminhar. Resolvi que não teria outro Ceguinho na minha vida, joguei minha mochila no chão e saí correndo atrás dele. Quando ia alcançá-lo, ele tropeçou e caiu numa poça de lama. os colegas que assistiram a cena se divertiram. "Aí, Renato!" eu pude ouvir de alguém. Me senti poderoso ao ver aquele moleque com medo de mim, jogado na lama e eu de pé na frente dele com os punhos cerrados. Eu tinha sangue nos olhos e esta seria minha vingança, mesmo não sendo quem eu gostaria que estivesse ali, jogado e humilhado, mas pelo menos eu iria extravasar toda a humilhação e sofrimento de meses.
Mas eu não era o Ceguinho, eu não tinha a menor vocação para aquilo. Baixei a cabeça e fui embora.
O Ceguinho ainda me atormentou durante meses, até desaparecer na sétima série. Nunca mais tive notícias dele, mas mesmo assim atormentou minhas lembranças durante muito tempo.
No fundo, mas bem lá no fundo eu gostaria de encontrá-lo uma outra vez só para dizer na cara dele "eu te odeio, cara!".
Hoje, descobri que isso tem nome, chama-se bullying. Se você que é pai, mãe ou professor é legal observar o comportamento da meninada, porque eu vou confessar a vocês: isso deixa marcas na vida difíceis de apagar.

3 comentários:

  1. Engraçado, isso acontecia com muita gente e nunca ninguém parou para pensar o q poderia acarretar na vida das crianças e adolescentes!! Hoje vemos as consequencias disso e sabemos que temos que abolir isso das nossas escolas! Como educadora, tento prestar atenção nisso todos os dias e muitas vezes nos passa despercebido, embora com tantas campanhas nas escolas!!

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  2. Olá, Renato. Vi que vc comentou lá no meu blog num post que tinha bem a ver com o seu.
    Só quem viveu algo assim sabe a dor que é. Hoje eu não sei se isso nos faz mais fortes ou mais desconfiados.
    Ótimos posts, viu? Parabéns, adorei o blog.

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    1. Obrigado pela força. Como você também não sei se somos mais fortes ou mais desconfiados, mas vamos vivendo assim. Um abraço.

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