quarta-feira, 5 de setembro de 2012

M.

M era uma menina simpática, expansiva, às vezes bagunceira mas nada do fora do normal de qualquer adolescente. Isso até descobrir que para ser ela mesma teria de travar uma batalha onde todos sairiam perdendo.
A diretora do colégio onde eu trabalhava chamava a sala de informática de confessionário, porque sempre havia algum aluno dividindo sua vida comigo. Como um bom ouvinte, prestava atenção ao relato - as vezes bem longo - de meninos e meninas procurando alguém com quem dividir sua alegria, tristeza, anseio e decepção. Como um bom amigo, aconselhava. Como um bom professor chamava a atenção por ele ou ela ter matado aula para vir falar comigo e mandava de volta para a sala de aula, mas não havia jeito: sempre alguém precisando de conselhos pedia para ir ao banheiro ou beber água e vinha bater na minha porta.
M era uma das maiores frequentadoras do confessionário. Chegava sem pedir licença, sorrindo e propondo: e aí professor, vamos colocar as fofocas em dia? Então começava a me atualizar com as mais quentes fofocas da classe, da vida de seus ídolos - cuja maioria eu não conhecia - e da sua família. M. se achava incompreendida, reclamava que seus pais não a entendiam e davam preferência para seu irmão que recebia mais atenção e tinha os desejos prontamente atendidos.
Dia desses ela me veio surpreender com uma munhequeira da Pitty e as unhas pintadas de preto, havia se tornado roqueira, algo que seus pais evangélicos nunca iriam concordar. Advertia-a, mas M era esperta, sua pose roqueira só se mantinha dos portões do colégio prá dentro. Lá fora, ela mantinha a imagem que seus pais queriam que ela tivesse. Não demorou muito e ela passou a trazer a roupa na mochila para trocar no banheiro do colégio, afinal roqueiro que é roqueiro tem de andar de preto. E lá vinha ela me perguntar o que eu achava, se devia pedir um All Star de cano curto ou longo para seus pais, se a sombra nos olhos não estava exagerada. Eu sabia que aquilo não iria durar muito, seus pais fatalmente descobririam e lhe dariam algum castigo. Dito e feito: ficou duas semanas sem internet além da obrigação de participar dos cultos diários da igreja.
Nesse período M. vinha implorar para usar a sala de informática para olhar seu Orkut e MSN, por mais que   lamentasse não podia atendê-la senão iria sobrar para mim também mas, havia algo além disso, havia um amargor em seus olhos que eu via crescer. Tentei abordá-la para descobrir o que estava acontecendo mas ela só me respondia que um dia me contaria. Um dia M não chegou sorridente à minha sala, ao contrário, estava bastante nervosa. Roendo o canto das unhas confessou: professor, estou gostando de alguém. Ora, quem é o sortudo? Perguntei brincando, mas só falou que depois me contaria.
M estava gradativamente mudando, cortou os longos cabelos de que tanto gostava, seu sorriso contagiante mudara para um esboço amarelado e magro e seus olhos afundaram-se e ganharam contornos de roxo.
Insisti para que ela me dissesse o que estava acontecendo, mas ela sempre se negava, desviava de assunto, mas eu podia sentir em seus olhos que ela implorava para desabafar. Disse a ela que sempre estaria ali para ajudá-la e que pudesse contar comigo seja para o que fosse, ela me sorriu e saiu da sala.
Depois disso, M desaparecera por uma semana. Ninguém tinha notícias dela e o pouco que seu irmão dizia era que ela estava doente, fazendo tratamento e tomando remédios. Na outra semana, descobri que pediram sua transferência e fiquei sem notícias por quase um mês.
Um dia, seu irmão veio conversar comigo, resolvi abordá-lo acerca de sua irmã. Ele resistiu por algum tempo mas depois contou: Professor, M tem um problema. Tipo, ela não é normal, saca? Não, respondi. Pô, ela, tipo, não é como as outras meninas, tipo que gosta de meninos, saca? Ela, tipo, gosta de meninas. Sério? Respondi surpreso. É véi, e ela resolveu contar prá minha mãe. Aí, tipo, a coisa ficou feia, minha mãe levou ela no psicólogo, um cara lá da nossa igreja, levou ela no pastor prá orar por ela, internou elas uuns dias só que a coisa só tá piorando. daí minha mãe resolveu mudar ela de escola.
Putz! Foi tudo o que consegui responder. Imaginei a pressão que a menina passava. Conhecia pouco a mãe dela mas sabia que era muito rígida com os filhos. Sabia quando você se sente impotente diante de uma situação? Pois é. Queria fazer algo por minha amiga, mas o quê?
Com dois meses M estava de volta, havia feito de tudo para ser expulsa do outro colégio e conseguiu. Me contaram que ela estava na Coordenação conversando com a diretora, corri para vê-la. Bati no portal, pois a porta estava aberta. Ela olhou prá trás e prontamente se pôs de pé e veio em abraçar. Acariciei seu cabelo, agora vermelho e ainda mais curto, olhei no fundo de seus olhos tristes e dei um beijo na sua testa. Você está linda, senti saudades. Notei o olhar de desaprovação da diretora, uma carola defensora da moral e dos bons costumes, mas que se explodisse. Disse a M que depois fosse em minha sala.
Minutos depois lá estava ela: E aí professor, vamos colocar as fofocas em dia? Claro! Sorri-lhe. Ela então me contou a dura batalha que travava com seus pais, sua família e sua igreja. Contou da internação a que foi submetida, dos remédios que fora obrigada a tomar e das sessões de oração na igreja. Confessou que sua amada também era da igreja e que resolveram assumir simultaneamente, mas esta deu prá trás na última hora e coube a M sofrer as consequências.
Por fim, sua mãe resolveu assumir que aquilo era uma fase e que passaria, só assim para tornar a realidade aceitável. Enquanto isso M ficaria de observação em casa e no colégio.
A sua volta não foi das mais agradáveis e pacíficas, porque teve de enfrentar agora a marcação dos colegas. Todos já sabiam de seu segredo e óbvio, isso dividia opiniões. Tal divisão culminou numa briga na porta do colégio. Não sei quem começou, mas as acusações de "sapatão" e "vadia" ecoavam de todos os lados. M teve um desmaio e seus pais foram chamados ao colégio. Dias depois soube que a mandaram para viver com os tios em Minas Gerais.
No princípio, nosso contato era semanal. Sempre conversávamos pelo MSN ou pelo Orkut. Depois passou a ser mensal e depois passei meses sem notícias suas, mas ao que tudo indicava ela estava bem, soube que namorava (escondido) uma outra menina e sempre que conversávamos ela me prometia aparecer qualquer dia.
M foi prá mim um exemplo de coragem, mesmo com as poucas armas que tinha lutou para que a respeitassem, mas também foi um exemplo de como a sociedade é cruel com quem é considerado diferente.
Força, menina, seu professor sempre vai estar aqui para a gente colocar as fofocas em dia!

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